Tenho uma pequena cicatriz no joelho, que me lembra minhas peraltices quando criança.
Era para ter ficado maior, tantas foram as vezes que o coitado foi machucado.
E não dava tempo de curar uma escoriação, lá vinha outra...Como toda criança, eu vivia correndo, caía muito e sempre defendia o corpo com o
joelho.
Além disso, havia a bicicleta. Não, não era pequena, própria para os meus seis anos de idade.Naquele tempo
não havia bicicleta infantil à venda nem na cidade mais próxima. Era bicicleta de adulto, dos primos, que eu pedia emprestada. As pernas ainda curtas, ficavam por baixo do cano, por dentro de um círculo que fazia parte do modelo daquele meu objeto de desejo da marca Monark.
O corpo ficava para um lado, numa total falta de simetria que fica difícil entender como eu conseguia realizar aquela façanha de pedalar, toda torta daquele jeito.
E foi assim que aprendi a me equilibrar naquela maravilha, depois de um festival de quedas e raladuras no joelho. Sangrava. E muito. Mas eu não corria chorando para casa. Havia o receio da bronca que levaria da minha mãe. Junto com o mercurocromo que se usava para curar o ferimento, com certeza viria um belo sermão por eu ter ido brincar na rua e também por ter pedido a bicicleta emprestada. O esparadrapo seria testemunho da proibição de não poder continuar meu aprendizado. Melhor não.
O remédio era lavar com água fria, comprimir, tremer de dor e ficar quieta.Quando sangrava pra valer, colocava pó de café para estancar o sangue. (Que loucura, meu Deus!Este era um dos remédios malucos que muita gente usava na região naquela época) Ou então, simplesmente, levantar, passar a mão e tirar a areia que ficava grudada no rasgo da pele.
Era assim toda vez que eu caía na estrada de terra da minha terra natal, um lugarejo no interior da Bahia, que não conhecia asfalto. Depois esquecia. No dia seguinte, recomeçava tudo. E lá vinha mais tombo. E mais sofrimento para o joelho... Mas não desisti. Foi preciso determinação para conseguir aquele objetivo, tão grande para a minha pequena idade: aprender a me equilibrar numa bicicleta.
Bendita cicatriz! Você para mim é uma prova da minha superação, determinação, força, e coragem para chegar ao que eu pretendia, mesmo com condições tão desfavoráveis.
A maioria das pessoas encara as cicatrizes do corpo, como um problema de estética. Mas se todos olhassem por outro lado, veriam o quanto de bom elas representam na nossa vida. E quanto maior for a cicatriz, maior a grandeza que ela nos trás. Mesmo que seja resultante de um acidente terrível. Aí é que elas podem ser vistas como grandes troféus. Troféu de superação, de sorte por ter escapado com vida, de determinação, de força, de coragem...
Acho mais difícil administrar as cicatrizes da alma. Aquelas que vamos adquirindo ao longo da vida através de sonhos perdidos, promessas não cumpridas, planos desfeitos,mágoas e arrependimentos.
As cicatrizes do corpo podem desaparecer. Mas as da alma, nós carregaremos pela eternidade.
Tem gente que não percebe quando fere com suas palavras e ações e não procuram curar aquele machucado que fica latejando por dentro do outro. E antes mesmo que esteja cicatrizado, lá vem outro e mais outro, aumentando o tamanho da ferida. Neste caso, mesmo que o tempo passe, fica uma cicatriz muito mais difícil de ser vista como lembrança de coisa boa.
O tempo cura a alma. Mas as marcas, por mais que não queiramos, ficam escondidas, esperando um momento para voltarem a sangrar. E o sofrer duas vezes, só depende de nós. Depende da maneira com a qual nos relacionamos com estas cicatrizes.
Podemos optar por deixarmos que voltem a sangrar a todo momento, que se tornem elementos de destruição da nossa vida, se vivermos lamentando tudo que nos fizeram, tudo que vivemos de ruim.
Ou então podemos escolher o caminho que nos beneficiará, se seguirmos em frente procurando ver naquelas marcas, sinais de fortaleza e capacidade de regeneração. Troféus por termos superado os momentos difíceis.
Ou quem sabe, sinais de alerta para que não repitamos os erros do passado...
Lúcia Antunes
9 comentários:
Adorei o texto. Você disse muito bem. Todos nós temos muitas cicatrizes. O difícil é saber nos relacionarmos com elas...
Bjo
Muito bem feita a descrição dos seus tombos.rsss Na minha infância também passei por isso, e também usei pó de café para estancar o sangue. a sorte é que não tivemos tétano..rsss
Perfeita a composição com as cicatrizes da alma.
Parabéns pelo texto!
Sua crônica chegou na hora certa! Era tudo que eu precisava ler hoje.
Obrigada!
Todos temos cicratizes ...as do corpo saram logo ...as da alma demoram e algumas nao saram...mas damos a volta por cima e continuamos..isso ai ...parabens vc continua escrevendo coisas lindas...Bjos...
CÉLIA, JOÃO CARLOS, SELMA e LEDA:
Obrigada pela visita de vocês e pelas palavras de incentivo.
Um grande abraço para todos.
Olá Lúcia!
Parabéns pelo seu blog!
Muito interessante.
Esta sua crônica me ajudou muito a refletir sobre algumas questões que tem sido difíceis de superar.
Valeu!
Fico feliz por isso, Graça!
Muita PAZ para você!
Bjo
Querida prima Lucia, como vao voces? Eu vou bem, gcs a Deus, soh na correria e na lida... : ) Antes de mais nada, quero me desculpar, por levar tanto tempo para enviar as fotos do Encontro de Goiânia. Aquela foi uma noite memorável... foi realmente uma experiencia inesquecivel, e quero em nome dos Aurora, agradecer muito pela oportunidade que voce nos deu de reforcar ainda mais nossos lacos familiares. Que Deus sempre lhe abencoe!
Fica aqui meu abraco carinhoso, com gosto de saudade e muitos votos de saude e felicidade para todos nós.
Um grande beijo do seu primo querido.
Yuri.
Oakland, California
Lindo texto!
Adorei a descrição!
Beijosss
Bom dia!
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