BEM-VINDO(A)! O CARRO DE BOI É SEU TAMBÉM!

O carro de boi tem sido o símbolo de um trabalho de pesquisa que iniciei há muitos anos e publiquei no livro de minha autoria CRISTÓPOLIS – TERRA DE MUITAS HISTÓRIAS.

Por ter sido o meio de transporte dos meus antepassados, e ter trilhado na história da minha cidade natal, Cristópolis–Ba, ele também faz parte da estrada da minha vida. E vem carregado de emoções, saudades de tanta gente que já se foi, e de muitas lembranças.

Hoje ele enfeita o meu desejo de APROXIMAR E REUNIR as pessoas, de VALORIZAR A FAMÍLIA e as nossas raízes e fazer com que os VALORES que recebemos dos nossos antepassados fiquem vivos nos nossos descendentes.

O Carro de Boi não é só meu. É SEU TAMBÉM.

Hoje você vive confortavelmente na cidade, viaja de carro ou de avião, mas no seu passado, alguém começou a sua história tocando um carro de boi. Portanto, O CARRO DE BOI ESTÁ NA RAIZ DA SUA EXISTÊNCIA.

OBRIGADA PELA SUA VISITA! Volte sempre!

Deixe um recadinho para registrar a sua passagem por aqui.

Um abraço

Lúcia Antunes

quinta-feira, 24 de março de 2011

087 - CAUSOS DO BURITIZINHO - PEGANDO CARONA NO CARRO DE BOI

BRINCANDO NUM CARRO DE BOI EM CRISTÓPOLIS -  jan/1965 
 1 - Irene Antunes - 2 - Edna Gonçalves - 3 - Lúcia Antunes - 4 - Valério P. Antunes- 5 - Adriano P. Antunes - 6 - Carmen Valéria Antunes - 7 - Marcello P. Antunes - 8 - Elisabete Santana - 9 - Eugênio P. Antunes 10 - Suely Antunes - 11 - Ana Maria Antunes.  



PEGANDO CARONA NO CARRO DE BOI

- Peraí, môço!!! Deixa a gente dar uma voltinha no carro de boi!!!
E o Carreiro, que sempre era alguém conhecido ou da família, ordenava aos bois: 
Ôôôôa!!” 
E a parelha obedecia, parando ao mesmo tempo, enquanto o carro também cessava de andar, rangendo as rodas como se tivesse freio.

Aí a meninada corria e pulava em cima do carro, sem se esquecer de pegar os pequenos no colo e os ajudarem a subir também.(Irmão mais velho ia brincar levando os mais novos porque tinha a obrigação de cuidar deles.)

Então o carro andava e depois subia lento, cantando, solavancando, dando a impressão de que o trajeto era maravilhosamente longo...
Era preciso segurar forte nos fueiros, para não cair diante dos grandes solavancos que os desníveis da estrada de terra provocava, e se deliciar com aquela viagem tão divertida para quem tinha menos de 10 anos de idade.

Quando chegavámos nos bueiros* ou na casa de "Sá" Benta, (atualmente final da rua Aureliano Antunes) descíamos e voltávamos a pé, felizes da vida, sem importarmos se o sol estava quente ou se a poeira era grande.
Era sempre assim quando passava um carro de boi sem carga na frente da minha casa.

Para a maioria das crianças que moravam na Vila Buritizinho, minha terra natal, aquilo não era grande coisa, estavam acostumadas a ver carros de bois passando todos os dias, a todo o momento. Mas para mim, que estudava na cidade da Barra(Ba) e só vinha nas férias escolares, não havia melhor diversão. 
Quando chegava a prima Ana Eleonora, que morava em Barreiras(Ba), os filhos de Getú e Aníbal  que vinham de Poções (Ba) ou os meus primos do Rio de Janeiro, aí a aventura ficava bem mais interessante.

Na frente da maioria das casas da recém-emancipada Cristópolis, havia mangueiras ou pés de monguba.  O carro de boi da família ficava estacionado debaixo daquelas árvores. 
Ali também era o paraíso das crianças. Quantas viagens imaginárias, naqueles carros de bois parados! O mundo era nosso. Podíamos ir aonde queríamos, sem pedir licença a ninguém. A ausência dos bois nos tornava onipotentes, pois nada nos ameaçava. Refiro-me á ausência dos bois reais. Porque na nossa imaginação, ali tinha bois sim, e os chamávamos pelos nomes: Tesouro, Pavão, Dourado..**. e outros nomes de bois que estávamos acostumados a ouvir.

Muitas vezes eles estavam ali perto, com a corda amarrada nos chifres e presa no galho da árvore a espera do carreiro para serem atrelados ao carro. Ao ouvirem os seus nomes, olhavam para a gente com aquele olhar piedoso, como se estivessem agradecendo por não estarem carregando peso. E ficavam nos olhando pacíficamente... como se entendessem que ali estava um grupo de crianças explorando o mundo.

Com criatividade, o nosso carro era o que queríamos que fosse. Amarrávamos pedaços de paus, com cordão de linha feita na roda de fiar, nos fueiros do carro, fazendo com que eles ficassem mais altos. Por cima, um lençol preso ao prolongamento dos fueiros, dava ao carro de boi uma capota, como se fosse um caminhão. 
Outra hora, o carro de boi se transformava em avião, trem de ferro...mesmo sem ainda termos visto um destes meios de transporte de perto...
Mas na maioria das vezes era simplesmente um carro de boi; nós é que incorporávamos personagens, representando pessoas e situações que nos contaram ou que criávamos.

E a imaginação nos levava para aventuras incríveis, cada um visitando o lugar dos seus sonhos, naquele meio de transporte tão usado naquela época para transportar pessoas e cargas.

Se o tempo estava fechado para chover, ao invés do lençol, preparávamos o carro amarrando uma toalha plástica nos fueiros, para nos dar abrigo durante a chuva. E ali debaixo daquela cobertura ficávamos até que nossos pais acabassem com a festa, nos mandando entrar para casa, sob a ameça de  ficarmos resfriados ou de morrermos eletrocutado por um raio.

Outra lembrança boa: no dia 23 de junho, era dia de fazer fogueira.
A preparação começava cedo em Buritizinho. Cortava-se uma árvore com um caule não muito grosso, que era trazida no carro de boi até a frente das residência. Ali era enfeitada com frutas, biscoitos e presentes, para serem os mastros de São João.  Naquele dia eram muitos carros entregando os mastros na rua. E assim que descarregavam, lá estávamos nós aproveitando para subir no carro de boi, sem importar se íamos sujar a roupa ou se o assento era desconfortável.  O importante era viajar rumo a um momento de intensa felicidade.

Tempo bom, de infância sem grades, sem nenhum brinquedo eletrônico, com muita criatividade, de pouca exigência para se divertir!...

Hoje eu pego carona no carro de boi para resgatar estas lembranças, que de repente, podem ser suas também...

(*) Os bueiros ainda existem em Cristópolis- Ba. Foram colocados por baixo da estrada BR242  para canalizar a água de um riacho que passa por ali. 
 (**) Pavão e Dourado era uma parelha de bois mansinhos da minha avó Lucia de Oliveira Antunes.

Um abraço
Lúcia Antunes

8 comentários:

Arte em Parafina disse...

Minha querida Lúcia, eu também já andei de carro de boi, que boa lembrança essa!
E aqui em minha casa em São Paulo à anos atrás, quando as ruas eram de terra meu falecido Pai também cortava um pé de eucalipto e nós o enfeitávamos com frutas e biscoitos e lá em cima no broto uma nota qualquer só pra aguçar a molecada, ai ele era enterrado e em volta uma fogueira, e que folia a espera de ele cair e poder comer as delícias e claro encontrar a nota !rsrsrs!
Era uma farra inocente e gostosa!
A gente até se vestia de caipira e dançava quadrilha e musicas caipiras! é uma pena que eu não tinha máquina naquela época ,os registros estão só na memória de quem participou desses momentos incríveis!

LÚCIA ANTUNES disse...

Olá RAQUEL! Também lamento a falta de registros de muita coisa boa que vivi. Antigamente a fotografia era mais cara, não dava para tirar a toda hora...
Felizmente podemos resgatar estas lembranças pelo menos nos escritos.
Beijo grande.

Ana Maria disse...

Oi Lucia, que saudade!!!
Como eram bons aqueles momentos!... Me recordei demais do meu pai trazendo a fogueira e nós ficávamos ansiosas para enfeitar... e no outro dia sempre tinha carne, milho, batata doce, etc para assar nas brasas. Que tempo bom!!!...
Obrigada por nos proporcionar tão lindas lembranças! E a Suzinha... tão linda!
Abração

Eugenio Paschoal disse...

Querida prima

Que viagem maravilhosa! O carro de boi é a máxima expressão de nossas recordações de Buritizinho. Ele carrega todos os sentidos - o cheiro do boi, o som do canto das rodas, o tato da madeira encerada pelo uso, a visão da paisagem por onde passa. Tudo se transforma num sonho.
Obrigado por reviver essas lembranças tão ricas que marcaram nossa infância. Beijos
Eugenio

LÚCIA ANTUNES disse...

Que lindo, querido primo EUGÊNIO!
...e o sonho vem trazendo também os personagens que fizeram parte da nossa história e que hoje se transformaram em saudades boas...
Sei que você é muito ocupado por isso cada vez que o encontro aqui é uma grande alegria.. É uma honra saber que entre uma viagem e outra rumo "ao mundo", você consegue encontrar um tempinho para viajar também no nosso carro de boi...
Beijos

LÚCIA ANTUNES disse...

ÔI ANA!
Identificou esse carro de boi da foto? Era do seu pai, com a "garagem" embaixo do pé de monguba da frente da sua casa. Vivemos muitas aventuras nele...
Beijos

Valdiva Antunes Pignata disse...

Oi,Lúcia, sabia que o carro de boi foi um grande símbolo da minha infância? Quando mudamos de Olho D'Água para o então Buritizinho, meu Pai me colocou num carrinho de bezerros que vinha atrelado ao último dos carros que traziam a nossa mudança. Foi um barato!... Entrar na rua cheia de gente que nos esperava, com aquele canto entoado das rodas dos carros cheios e pesados... e eu, lá, segurando os dois fueirinhos, na maior felicidade!...Jamais pude esquecer tal proeza! Uma bela viagem de aventura!...
Abraços da prima Valdiva.

LÚCIA ANTUNES disse...

Ôi VALDIVA!
Obrigada pela sua visita.
Seu comentário confirma o que eu disse na primeira página do blog:
o carro de boi não é só meu, é de todos nós.
Volte sempre!
Um abraço.

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