BEM-VINDO(A)! O CARRO DE BOI É SEU TAMBÉM!

O carro de boi tem sido o símbolo de um trabalho de pesquisa que iniciei há muitos anos e publiquei no livro de minha autoria CRISTÓPOLIS – TERRA DE MUITAS HISTÓRIAS.

Por ter sido o meio de transporte dos meus antepassados, e ter trilhado na história da minha cidade natal, Cristópolis–Ba, ele também faz parte da estrada da minha vida. E vem carregado de emoções, saudades de tanta gente que já se foi, e de muitas lembranças.

Hoje ele enfeita o meu desejo de APROXIMAR E REUNIR as pessoas, de VALORIZAR A FAMÍLIA e as nossas raízes e fazer com que os VALORES que recebemos dos nossos antepassados fiquem vivos nos nossos descendentes.

O Carro de Boi não é só meu. É SEU TAMBÉM.

Hoje você vive confortavelmente na cidade, viaja de carro ou de avião, mas no seu passado, alguém começou a sua história tocando um carro de boi. Portanto, O CARRO DE BOI ESTÁ NA RAIZ DA SUA EXISTÊNCIA.

OBRIGADA PELA SUA VISITA! Volte sempre!

Deixe um recadinho para registrar a sua passagem por aqui.

Um abraço

Lúcia Antunes

segunda-feira, 7 de junho de 2010

AS PROCISSÕES NA BARRA


Olhando pela janela das minhas lembranças, vejo com saudade as procissões feitas pelo meu tio Mons. Francisco Antunes, que foi vigário geral da diocese da Barra de 1961 a 1970.

De um lado, os homens. Do outro, só mulheres. Todos em fila. 
As crianças, na frente, por ordem de tamanho. E pelo menos naquele momento, fazíamos questão de ser pequenas para ficar antes das outras. Os pequeninos necessitavam de um adulto para ir segurando na mão.

No meio, o andor enfeitado com flores e com a imagem do santo, carregado por quatro ou mais pessoas compenetradas.





O Mons. Francisco caminhava entre as fileiras, com seus passos largos, vestido com a batina preta, a sobrepeliz branca e uma estola com a cor designada para a celebração. 

Com voz forte, cantava “Avante por Cristo!”, “O meu coração é só de Jesus”, “Queremos Deus”, “ Neste dia oh Maria”... ou outros benditos apropriados para a ocasião, regendo com maestria e animando aquela multidão. 

(Mesmo que não estivesse na casa do milhar o número de pessoas, aquela fila comprida dava a impressão de ser interminável para quem ainda não tinha crescido...).



No Domingo de Ramos, a bênção das folhas de palmeira era feita na Catedral e todos vinham em procissão, passando pela praça do Coreto, agitando seus ramos. 

Ao passar pelas ruas, as pessoas deixavam o que estavam fazendo e vinham fazer parte da fila, que se tornava imensa!... E era com muita facilidade que se posicionavam uma atrás da outra, pois já estavam acostumadas.

Na festa de São Francisco, a procissão era a mais participada. Tantos fiéis, que os da frente perdiam de vista o final da fila! 

Enquanto o início estava chegando à igreja de Na. Sa. do Rosário, ainda tinha gente saindo da Matriz. 

No meio, a imagem do Santo padroeiro no andor. Crianças vestidas de anjos, meninos caracterizados de franciscanos e meninas de clarissas, cada um segurando uma conta do terço gigante feito de papel e coberto com celofane transparente.

As alunas internas e externas do Colégio Santa Eufrásia, enfileiradas com uniforme de gala.

Ao lado da fila, o olhar e o controle da Madre superiora e das Irmãs da Imaculada Conceição, para as moças não flertarem com os rapazes. (mesmo assim os bilhetinhos acabavam sendo entregues ás Internas).

O som do saxofone tocado pela Banda de Música trazia um brilho especial para aquele momento. Emociono-me só de lembrar! Tudo muito organizado!

Durante a Semana Santa, as vias-sacras seguiam o mesmo estilo das demais procissões. 
Como eu gostava de ver a Moça que representava a personagem bíblica "Verônica" cantando em latim  e desenrolando o pano estampado com a face de Jesus! Dona Eutália Santos era a artista responsável por aquela pintura muito bem feita. 

E a procissão do encontro de Nossa Senhora das Dores com Jesus agonizando? As imagens da Mãe e do Filho se encontravam em frente á capela do Palácio Episcopal.

Todos os anos, um sacerdote missionário redentorista, orador consagrado, era convidado pelo bispo Dom João Muniz que também era da mesma congregação, para fazer o rico e emocionante sermão do Encontro.

Lembro-me da eloquência do Pe. Geraldo Lima C.Ss.R., que veio da província redentorista do Rio de Janeiro. Ele descrevia a Paixão de Cristo com tanto realismo, que tudo parecia estar acontecendo naquele momento.

Na festa do Bom Jesus dos Navegantes, a procissão era fluvial. O rio ficava cheio de barcas enfeitadas cheias de fiéis acompanhando a imagem em destaque numa embarcação maior. Coisa linda de se ver!

No dia de Corpus Christi (Corpo de Cristo) o paramento do Padre era o mais bonito. O sacristão levava o turíbulo e a fumaça ia espalhando o cheiro bom do incenso pela rua. Em algumas casas, um altar era preparado na frente, e todos paravam para rezar.

Se fosse noite, levavam velas. 
Um círculo de cartolina com um buraco no meio, por onde a vela era introduzida, protegia nossas mãos da queimadura com a cera quente que escorria com o calor da chama. 
(Todo cuidado para não queimar o cabelo de quem estava na nossa frente, era pouco!) 

E era bonito ver aqueles pontos luminosos andando um atrás do outro, parecendo um grupo organizado de vaga-lumes, na noite escura do lugar, que mesmo tendo gerador a lenha, postes com fiação e lâmpadas, tinha luz elétrica que não iluminava muito.

Quando retornava à igreja, aí era uma festa! 
O sino repicava alegremente. 
O Mons. se empolgava e, levantando os braços, bradava com voz forte muitos VIVAS: “Viva Jesus Cristo!” “Viva Nossa Senhora !”... que era respondido com o mesmo entusiasmo pelos participantes, acompanhando com palmas: “VIVAAA!!!” 
E pensar que nem sempre tinha microfone!...



Ao som do “Tantum Ergo” ou do “Tão Sublime Sacramento, adoremos neste altar...” cantado por todos, ele vestia uma capa branca de cetim, com bordados feitos com fios dourado e arrematada com veludo, e dava a bênção do Santíssimo Sacramento.

A campainha badalando, dizia que era hora de ajoelhar e adorar Jesus naquele pão sacramentado, um mistério que não se podia nem pensar em questionar. 
Um momento sagrado. 
De plena interação com o invisível, enxergando os pedidos feitos ao “meu Senhor e meu Deus” por aquele povo extasiado, subirem na fumaça saída do incenso em combustão no turíbulo. 
Eu, no auge da minha infância de imaginação fértil, 
tentava decifrar o desenho formado no ar pela fumaça e até via símbolos sagrados que se desmanchavam em fração de segundos, mal dando tempo de identificá-los... 
ora um peixe, uma cruz... ou um cordeiro... ora uma bola mais escura, cheia das forças do mal, sendo repelidas por aquele perfume.
A bênção era recebida e levada para casa com muita fé.

Naquele tempo, só existia uma Igreja evangélica na Barra.(Se eu estiver enganada, por favor, me corrijam!) Tudo perpassava pela religião católica. A grande maioria participava.


Só ficava olhando pela janela,
vendo a procissão passar,
quem estava impedido de sair de casa por estar doente,
ou quem está impedido pela distância do tempo,
como eu...

Lúcia Antunes



11 comentários:

Gilda Souza disse...

Maravilhosa a sua descrição!
Me sentí como se estivesse na fila, participando da procissão.
Um abraço!

Maria Augusta disse...

Lúcia, você me fez voltar ao tempo em que eu era garota e morava na Barra. Foi como se eu enxergasse as procissões que o seu tio Mons. Francisco organizava no dia 04 de outubro, dia de São Francisco. Lembro-me que a fila era tão grande, que quando o início estava chegando na Igreja de Na. Sa. do Rosário, o final da fila estava ainda saindo da praça da Igreja Matriz. Bons tempos aqueles! Deu saudade!
Você se lembra?
Bjo

LÚCIA ANTUNES disse...

Claro que me lembro, Maria Augusta!
E nós na fila junto com todos as colegas, vestidas com o uniforme de gala do Colégio Santa Eufrásia....
Antes de sair, a irmã superiora passava a fila em revista, fiscalizando com uma régua, o cumprimento das nossas saias e meias, para que ficasse tudo certinho...
Quando eu era menor, durante vários anos eu fiz parte da procissão vestida de anjo ou de Santa Clara, junto com outras crianças, segurando a conta gigante do terço de papel, (feito pela Dona Eutália dos Mutucas), que ia no meio da procissão. Muita saudade, mesmo!
Gostaria de saber se ainda continuam fazendo procissão na Festa de São Francisco, lá na Barra...
Um beijo

Angela Bonelli disse...

Isso é muito bom!

Nilêda Queiroz Queiroz disse...

O "Carro de Boi " está excelente.De vez em quando, dou uma olhadinha nele.Parabéns minha amiga. Bj

Eutalia Santos disse...

Parabéns Lúcia pela grande iniciativa. Você está resgatando a memória institucional da Barra. Obrigada pelo carinho com que se refere a professora Eutalia de Oliveira Santos minha querida Tia.

LÚCIA ANTUNES disse...

Agradeço-lhe, Nilêda Queiroz Queiroz. O nosso carro esteve parado para manutenção do eixo (rsrs) mas aos poucos vou colocando-o na estrada outra vez. Continue viajando conosco! Beijos.

LÚCIA ANTUNES disse...

Eutalia Santos, não só a sua tia Eutália, mas a Profa. Luzia, o Sr. Anísio, seus Pais, você, Aninha, sempre estiveram vivos na minha memória. Fazem parte do meu começo, da minha infância na Barra e sinto saudades de todos.

LÚCIA ANTUNES disse...

Angela Bonelli, bom é ter você "apongada" no carro de boi, como diz Tadeu Andrade de Queiroz! rsrs

Rosangela Medeiros disse...

Lucia Antunes Antunes,, andei dando uma olhada na sua página,, está de parabéns menina,,, beijo

LÚCIA ANTUNES disse...

Grata, Rosangela Medeiros. O blog esteve de "recesso" desde 2012. Agora estou me organizando para reservar um tempinho para ele. Beijo.

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