BEM-VINDO(A)! O CARRO DE BOI É SEU TAMBÉM!

O carro de boi tem sido o símbolo de um trabalho de pesquisa que iniciei há muitos anos e publiquei no livro de minha autoria CRISTÓPOLIS – TERRA DE MUITAS HISTÓRIAS.

Por ter sido o meio de transporte dos meus antepassados, e ter trilhado na história da minha cidade natal, Cristópolis–Ba, ele também faz parte da estrada da minha vida. E vem carregado de emoções, saudades de tanta gente que já se foi, e de muitas lembranças.

Hoje ele enfeita o meu desejo de APROXIMAR E REUNIR as pessoas, de VALORIZAR A FAMÍLIA e as nossas raízes e fazer com que os VALORES que recebemos dos nossos antepassados fiquem vivos nos nossos descendentes.

O Carro de Boi não é só meu. É SEU TAMBÉM.

Hoje você vive confortavelmente na cidade, viaja de carro ou de avião, mas no seu passado, alguém começou a sua história tocando um carro de boi. Portanto, O CARRO DE BOI ESTÁ NA RAIZ DA SUA EXISTÊNCIA.

OBRIGADA PELA SUA VISITA! Volte sempre!

Deixe um recadinho para registrar a sua passagem por aqui.

Um abraço

Lúcia Antunes

sexta-feira, 13 de maio de 2011

100 - CAUSOS DO BURITIZINHO: INJEÇÃO CONTRA RISADA


Jarde e Aureliano (Lero)

-“Não agüento mais tanta dor!” Desabafou Aureliano Antunes, mais conhecido como “Seu Lero”. 
Os galos cantando avisavam que já era madrugada e ele não havia conseguido sequer cochilar. O nervo ciático gritava que estava inflamado e o comprimido analgésico tomado com um chá não diminuía a intensidade da dor.
A esposa, Jardelina de Paiva Antunes, o acompanhava naquela vigília, sem saber mais o que fazer para acalmar o marido em ânsia.
Jarde pegou a caixa que Serapião de Paiva,  seu irmão,  havia enviado para ela. Continha várias injeções e uma seringa (naquele tempo não era descartável). Mas não havia quem aplicasse naquela hora de aflição.



Serapião de Paiva
Como desejou que aquele mano estivesse ali! Serapião morava em São Paulo. Era dono da Farmácia  Santa Marina,  no Parque Água Branca  e sabia aplicar injeção e “receitar” remédios. Sempre que vinha passear em Buritizinho, trazia medicamentos e deixava para Jarde distribuir a quem precisasse.


Na Vila de Buritizinho, naqueles idos de 1953, não havia hospital, médico e nem farmácia. Nas lojas, que vendiam de tudo, era possível encontrar apenas alguns comprimidos e xaropes.No povoado de Cantinho, a seis quilômetros de Buritizinho, também vendiam alguns remédios nas lojas. Mas o maior estoque de medicamentos era na loja de Ranulpho Antunes de Sant'Anna, que morava a quatro léguas dali (vinte e quatro quilômetros), no povoado de Olhos D´Agua. 
  
Elpídio Pignata, o dentista prático de Buritizinho, era o único da Vila que aplicava injeções. Jarde pensou em ir acordá-lo. Mas a chuva grossa, na madrugada escura, daquele lugarejo sem energia elétrica, fez com que ela desistisse de sair.
Por que você não me aplica logo uma injeção? Indagou o desesperado Lero.
Eu? Respondeu Jarde. Mas você sabe que eu nunca fiz isso!
Não tem problema. Com certeza a dor não será maior do que esta que estou sentindo.

Sem alternativa, Jarde se encheu de coragem, ferveu a seringa para desinfetar, preparou um antiinflamatório,  se benzeu e aplicou no marido. E deu certo. A dor foi aliviada e puderam dormir em paz.

Esta foi a porta de entrada para a carreira de “Enfermeira” da Dona Jarde, que tanto ajudou aos habitantes do município de Cristópolis.



Seringas de Dona Jarde

INJEÇÃO CONTRA RISADA


Buritizinho, 1962. 
Dona Jarde ferveu a seringa, e preparou a injeção de penicilina. Seu filho, Dilmar de Paiva Antunes, brincava ao lado, até perceber que a vítima da espetada seria ele. Com toda a agilidade própria dos seus  onze anos de idade, saiu em disparada rumo ao quintal. Dona Jarde,  com a seringa na mão, o acompanhou. 

Enquanto corria atrás dele, a filha de sete anos, Zilma Antunes, que adorava rir do malfeito, acompanhava aquela maratona, rindo sem parar, dando fortes gargalhadas, ao ver os “dribles” que o irmão dava na mãe.

Corre daqui, corre dali, Jarde arfando de nervoso e de cansaço de tanto perseguir o garoto, pedia: 
-“Zilma, pare de rir, menina!”

Dilmar ganhou a porta da rua e subiu no pé de monguba  que ficava na frente da casa. Jarde, embaixo, armada com a seringa pronta na mão. Zilma, ao seu lado, continuava rindo.

Cada vez que Jarde dizia: 
-“Desce, Dilmar!!”,  
ele, feito gato assustado, subia mais um galho daquela frondosa mongubeira.

Diante da insistência da mãe, sentindo-se acuado, Dilmar desceu.  Ao ver a agulha de perto, ficou mais apavorado ainda e atravessou a rua correndo  em direção ao  quintal da casa da sua avó Lúcia. 
Zilma ficou, perto de Jarde,  contorcendo-se de tanto rir.

Diante do olhar de reprovação da mãe, a menina colocou as mãos na boca para tentar segurar o riso, que veio muito mais forte, como se fosse uma bomba ou um saco de risada. De repente, a mãe pegou o braço da garota, que estava vermelha de tanto rir e disse: -“Venha cá! Eu não vou desperdiçar este remédio caro!” 

Zilma, desesperada, ainda tentou convencer a mãe dizendo:
-“ Péra aí, Mãe, eu não estou doente, quem está gripado é o Dilmar!” 
Mas não adiantou: Jarde  aplicou-lhe a injeção, esclarecendo:
-“Se não tiver gripe, pelo menos vai servir para fazer você parar de rir!”
                                            ==============================================


(Pois é.Quem diria que o garoto medroso de injeção se tornaria o competente cirurgião Dr. Dilmar de Paiva Antunes!)
Dr. Dilmar de Paiva Antunes



Um abraço à tia Jarde e aos primos Zilma e Dilmar.

Lúcia Antunes


18 comentários:

Márcia disse...

Adorei!!!
Com estes causos a gente acaba tendo uma idéia de como era a vida dos nossos parentes no antigo Buritizinho. Obrigada!

Eugenio Paschoal disse...

Querida prima Lucia

Me fez lembrar minha ida a Cristópolis logo depois que me casei com a Carla em 1984. Ao chegarmos de carro passamos um dia maravilhoso no Rio de Ondas em Barreiras e seguimos para Cristópolis ao entardecer. Chegando em Cristópolis cansados daquele banho de rio, fomos dormir na casa paroquial depois de uma prosa com todos os tios e primos que ali nos recepcionaram. Mas eis que acordei na madrugada totalmente paralisado, sem conseguir mexer um lado do corpo. Carla, desesperada, acordou a tia Beth pedindo por um médico... Qual o quê, estamos em Cristópolis, o médico aqui é tia Jarde - disse para Carla. Corra lá, é logo ali em frente. E lá veio tia Jarde com toda aquela calma me examinar e logo deu o diagnóstico: torcicolo, acredite se quiser! Ela matou na mosca ao saber do banho de rio e de nossa viagem no fim da tarde (que estava bastante fresca) com o vidro do carro aberto. Pra curar, apenas Gelol!

Unknown disse...

Hahahahahahaha... morri de rir imaginando a situação!! Orgulho do meu pai, mesmo tendo medo de injeção, hahaha! Beijos, prima =)

Ana Maria Paiva disse...

Oi Lúcia,

Que saudades do meu pai... Como sofreu com aquele problema da coluna... Realmente minha mãe salvou muitas vidas naquela região, e eu fui testemunha disso. Por várias vezes durante a madrugada segurei a cuba enquanto ela dava pontos na cabeça de acidentados. Ainda hoje alguns vêm visitá-la e agradece-la. Mesmo sem estudar medicina ela era a médica daquela época e salvou muitas vidas. E não tinha medo, enfrentava qualquer situação...
Ela merece essa homenagem! Obrigada!
Abraços.
Ana

Anônimo disse...

Esta história é muito engraçada, muito bom saber como era a vida das pessoas em Cristópolis antigamente.
Beijos

LÚCIA ANTUNES disse...

Esta é a minha intenção com os causos: tentar fazer um retrato de como viviam os nossos antepassados no antigo Buritizinho. Havia muitas dificuldades, mas também muita poesia, união e viviam de uma forma muito bonita, partilhando tudo...

Obrigada pelo seu comentário. No próximo, não se esqueça de assinar.
Beijos.

LÚCIA ANTUNES disse...

Querido primo EUGÊNIO!!!
Foi uma grande surpresa para mim saber que você também foi "paciente" da tia Jarde!!!Para os que viviam na região de Cristópolis, serem tratados por ela, era uma situação comum, pois não havia alternativa. Mas para você, residindo no Rio de Janeiro...eu nunca imaginei que tivesse o conhecimento de causa!
Fiquei imaginando o desespero da Carla, ao tomar conhecimento de que estava num lugar sem recursos na área médica... Mas pode dizer para ela que não tenha medo de voltar, porque Cristópolis evoluiu muito. Agora tem hospital, médicos, SAMU e principalmente, estradas em ótimas condições para seguir adiante se a necessidade de atendimento for mais especializada. (que Deus nos livre de precisar!)
Outra coisa: a casa que vocês ficaram foi reformada, e está com melhores condições para recebê-los.
Obrigada mais uma vez pelo seus comentários. Eles sempre acrescentam, vem de encontro ao meu objetivo de passar a história das nossas raízes, além de sempre me deixarem muito feliz por encontrá-lo aqui.
Beijos para você e para a Carla.

LÚCIA ANTUNES disse...

Você disse muito bem, LUCIANO!
"mesmo tendo medo de injeção..." porque fiquei sabendo por fonte segura que o nosso doutor ainda hoje prefere ser medicado por via oral...rss
Beijos

LÚCIA ANTUNES disse...

Querida prima ANA MARIA
Eu também testemunhei muitas ações da sua mãe. Uma que me impressionou bastante, foi a retirada de um anzol que estava preso na pálpebra de um garoto. Esta foi uma das cirurgias difícies que ela enfrentou com sucesso.
Beijos

Magda disse...

Lúcia, foi muito engraçado o que aconteceu. Não sabia que meu pai da participação indireta de meu pai, no inicio da carreira de tia Jarde.
Beijos

LÚCIA ANTUNES disse...

ôi MAGDA!!!
Que bom encontrar você aqui no blog!
Penso que o Serapião, seu pai, além da participação direta no início da carreira da tia Jarde como enfermeira, ainda leva o mérito de ter sido um importante exemplo e incentivo para ela.
Beijão

Gilce disse...

Oi Maria Lúcia!
Que legal esta postagem! Ver a foto de Seu Lero e D.Jarde foi uma grande alegria.
Realmente minha mãe com sua coragem e bravura, incentivada pelo querido tio Monsenhor Francisco e pela necessidade do lugar, ajudou muita gente naquela região.
Sempre que vou a Cristópolis, vejo pessoas que chegam agradecendo, trazendo filhos adultos que ela ajudou quando criança.
Acho que ela tinha a inspiração divina pois mesmo sem conhecimento da medicina ela conseguiu salvar muitas vidas.
Obrigada e um abraço!
Gilce

Jorge disse...

Muito bom!!!!
Este é mais um que vou levar para os meus alunos do curso de História.
Abraços.

Thelma disse...

Adoro estes seus causos. Obrigada por nos presentear com descrições cheias de detalhes e bem-humoradas, que retratam fielmente uma época e o que era comum no interior do nosso Brasíl.
Continue, seu trabalho é muito bonito!
Beijos.

Zilma Antunes disse...

Maria Lúcia,
Como não comentar esta matéria!!!!

Realmente, foi isto o que aconteceu (me lembro como se fosse hoje...) O texto ficou muito bom... E essa seringa da D. Jarde, onde você encontrou? Acho que você já nasceu prevendo o que faria no futuro.. Sempre gostou de fotografias.Onde consegue tantas fotos?!!!! Ainda bem que vive na era da informática.

Quero dizer que admiro demais D. Jarde (minha mãe)pela sua coragem... Eu presenciei muitos atendimentos feitos por ela, de arrepiar!!! Vou contar um: O jipe do Tio Mansenhor, capotou perto de Ibotirama, e o Anias, que era o motorista, chegou cedinho com os feridos, batendo na nossa casa. Ela acordou-me para ir ajudá-la. (Logo eu que não suporto ver sangue). Fomos para o posto de saúde. Os feridos gritavam de dor, e havia muito sangue. Ela, calmamente, fez uma triagem, e começou pelo pior. Lavou, limpou, colocou a medicação e quando começou a dar os pontos, eu, que mal havia iniciado, encerrei minha missão: minha pressão caiu tanto, que tive um desmaio. Ela foi cuidar também de mim.
Esta é uma das poucas...
Em Cristópolis, e em toda a região, são poucas as pessoas que não foram "medicados" por ela. E todos ficavam satisfeitos com o resultado. Coisa de Deus!!!
Quanto à injeção que tomei pelo Dilmar, ele me deve esta...
Quando chegávamos de férias, todos nós tomávamos injeção de vitamina e remédio para vermes. Ninguém escapava...
Muito obrigada pela oportunidade de reviver situações da nossa infância, e por citar a D. Jarde, que, dentro de suas precárias condições, contribuiu, e muito pela saúde, em nossa cidade.
Dê um abração em todos.

Bjs

LÚCIA ANTUNES disse...

GILCE, JORGE, THELMA E ZILMA

Agradeço com muito carinho a visita de vocês, as palavras de incentivo e a valiosa complementação da postagem, através dos seus testemunhos.
Um abraço para cada um.

Walter de Paiva disse...

Bom dia prima!

Tudo bem graças a Deus, tenho acompanhado as postagens e achei muito interessante a forma como a Tia Jarde inspirou-se para dar início a carreira de "enfermeira".

Apliquei muitas injeções na Farmária do meu pai com este tipo de seringa confeccionada em vidro, tudo muito diferente do que é hoje, bem como as agulhas todas em aço e o estojo metálico que servia para guarda e esterilização.

Imagino como tudo era difícil na época, devido a escassez de recursos e localização geográfica.

Oportuno tambem sua prestação de serviços com as questões ambientais, não é a primeira vez que tenho a oportunidade em ler no blog citações relativas ao tema, a primeira foi o plantio de vegetação exótica em Cristópolis e agora destinação final de resíduos e formas de contribuir para redução do lixo gerado, nas grandes metrópolis é uma problemática diretamente relacionada à saude pública. Parabéns!!!

Sou Gestor Ambiental, graduado pela Universidade de Mogi das Cruzes e Pós graduado em Sistemas de Gestão Integrado da Qualidade, Meio Ambiente, Segurança e Saúde Ocupacional e Responsabilidade Social pela Faculdades SENAC.

O Blog CARRO DE BOI DA LUCIA é acima de tudo é um canal de comunicação e prestação de serviços.

Um forte abraço a todos.

LÚCIA ANTUNES disse...

Olá Primo Walter!

Obrigada pelo seu comentário, pelas suas generosas palavras.
Sou consciente da minha responsabilidade com a sustentabilidade do nosso planeta, e procuro fazer a minha parte. Pretendo aproveitar este espaço para expandir esta idéia.
Volte sempre!
Um abraço grande.

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