Na antiga Vila de Buritizinho, hoje cidade de Cristópolis-Ba, minha terra natal, entre a maioria dos quintais, não havia cercas. Estas eram usadas apenas na frente e nas mangas para evitar a saída dos animais.
O quintal da minha avó Lucia, por exemplo, era comum com o do tio Pedro, vizinho do lado esquerdo, e com o do tio Juve, vizinho do lado direito. Mas todos sabiam onde começava o do outro. Conheciam e respeitavam os limites, mesmo sem estarem delimitados por cercas ou muros.
Num dia de aventura, lá nos meus quase seis anos de idade, eu estava zanzando pelo quintal, quando encontrei um pé de pimenta. Mesmo tendo horror ao sabor picante, não sei para que, colhi as três frutas maiores e mais vermelhas que vi na pimenteira.
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| Lúcia de Oliveira Antunes e sua neta Lúcia Antunes |
Ao entrar em casa, dei de cara com a minha avó Lucinha, que olhando para minha mão, perguntou-me:
- Quem lhe deu estas pimentas?
- Ninguém! Respondi inocentemente. Fui eu quem tirei ali no pé.
- Onde?
- Lá no quintal do tio Pedro.
- E ele autorizou você a fazer isso?
- Não, "Vó", ele nem viu!
- Então vamos lá, e me mostre onde é a pimenteira.
Ao chegarmos em frente ao pé de pimenta, começou o sermão:
- Você está vendo aquele mourão? Disse a minha avó, apontando um pau de aroeira mais grosso, que estava fincado junto da cerca que separava o quintal da rua. Ele está marcando a divisão do quintal. Tudo o que está do lado de lá, pertence ao seu tio. Do lado de cá, é nosso. Portanto, qualquer fruta ou qualquer coisa que você for tirar do lado de lá, tem que pedir ao dono antes.
- Mas o tio Pedro não estava aqui, Vovó!
- Deveria ter ido antes na casa dele, e perguntado se podia. Pegue as pimentas e vamos lá agora.
E lá fomos nós para que eu confessasse ao meu tio o meu pecado de ter “bulido” no quintal dele, sem pedir licença.
Sabendo da lição que a minha avó queria passar, ele deu continuidade ao ensinamento:
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| Pedro de Oliveira Antunes |
- Eu não faço conta de nada que tem no meu quintal. Mas quando você quiser alguma coisa que não lhe pertença, tem que primeiro falar com o dono para ser autorizada por ele.
E arrematou contando o que aconteceu com ele quando era menino:
"Um dia eu estava brincando no quintal do meu avô e encontrei, JOGADO NO CHÃO, um cabo de chicote de metal, quebrado. Quando cheguei em casa, meu pai me obrigou a voltar e colocá-lo no mesmo lugar onde eu o havia encontrado."
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Poucos dias depois, encontrei naquele mesmo quintal, uma romã grande e madurinha e fui correndo perguntar ao tio Pedro se podia tirar do pé.
Com o sorriso grande que era sua característica, ele autorizou dizendo:
- Muito bem! É assim mesmo que se faz ! Você é uma menina inteligente e aprendeu direitinho. Pode tirar quantas romãs quiser, desde que estejam maduras.
Saí toda feliz com o elogio e fui presenteada também com uma penca de banana maçã, tirada do cacho que ficava no canto da despensa dele. Acabava um, sempre tinha outro...
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Sei de muitas histórias que ilustram a educação que nossos antepassados receberam e transmitiram para as pessoas da minha geração. Aproveitavam as situações simples do cotidiano para repassar conceitos e valores. Aos poucos, irei compartilhando com vocês.
No mundo de hoje, onde o “levar vantagem” na maioria das vezes contradiz a moral, acho oportuno relatar situações como esta, que educavam as crianças, colocando sempre a honestidade em relevo.
Um abraço a todos.
Lúcia Antunes
8 comentários:
Oi Lúcia,
Mas era assim mesmo que funcionava... São lições que a gente nunca esquece e transmite para os nossos filhos.
Que saudades da vovó Lúcia e do tio Pedro (era a primeira visita quando chegávamos em Cristópolis, e sempre sorrindo).
Obrigada pelos causos que nos fazem voltar ao tempo...
Querida prima ANA,obrigada por estar sempre presente e pelo seu comentário.
Somos todos agraciados por termos tido pessoas corretas nas nossas raízes que nos transmitiram os valores essenciais da vida.
De fato o tio Pedro era quem primeiro visitava os parentes que chegavam. E já chegava trazendo um agrado: banana, doce, ovos de cocar (galinha-d'angola), batido de rapadura,... Era um homem fino, de boas maneiras, de boa educação...
Volte sempre!
Beijos
Parabéns por mais este causo maravilhoso. São fatos antigos que não devem mesmo ficar esquecidos. Devem ser repassado para o mundo de hoje, tão carente de valores como a honestidade.
Beijo
Obrigada, MÁRCIA!
Concordo plenamente com você!
É sempre muito bom encontrá-la aqui!
Beijos
Adoro os seus causos! Espero que continue sempre nos brindando com este seu jeito peculiar de escrever,muito claro, agradável e que nos faz viajar no tempo e nos espaço. E de quebra, proporciona momentos de grande reflexão...
Parabéns!
Abraços
Querida prima que bom ter nascido nessa época maravilhosa onde o respeito era imperativo e vinha de berço!
bjs
Raquel
Obrigada pelo incentivo, CARLA!Que bom saber que você gosta dos causos!
Pretendo continuar sim. Meu objetivo é tentar repassar um pouco do que vivi e do que me contaram, sobre o passado de um lugar e de pessoas que merecem ser referência para nós.
Beijos
É verdade, RAQUEL!
Ter nascido num berço cheio de valores é um privilégio.
Oxalá estes mesmos valores sejam sempre repassados nas nossas famílias!
Volte sempre, Prima Querida! Fico muito feliz quando a encontro aqui!
Beijão
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