Santas Missões, Missões Redentoristas ou Missões
Populares Redentoristas é o nome dado ao trabalho de evangelização realizado
pelos missionários da Congregação do Santíssimo Redentor em todo o mundo.
Cresci ouvindo dos meus familiares relatos das Santas Missões vivenciadas por eles em Buritizinho (atualmente cidade de Cristópolis-Ba).
Participei da última, em 1959.
Esta foi pregada também com o objetivo de preparar o povo para a festa de Ordenação do Padre Damião Antunes C.Ss.R., que aconteceria em janeiro de 1960.
Olhe eu aí, com três anos, no meio dos padres, em frente à nossa casa! rsrs
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| Buritizinho, 1959 - Santa Missão - Emiliano Antunes, Pe. Armindo Magalhães, Pe. José Miguel do Líbano CSsR, Lúcia Antunes com 3 anos, Pe. Luiz Vieira e Pe. Antunino CSsR.
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Buritizinho fazia parte da Diocese da Barra-Ba.
Li
numa revista católica (FIDES) dos anos sessenta, a seguinte estatística: A
Diocese da Barra é a maior do MUNDO em
extensão territorial (e a mais pobre também).
No anuário católico de
1960 consta sua superfície naquela época: 233.907 (duzentos e trinta e três mil
novecentos e sete) quilômetros quadrados, com uma população de 587.567
habitantes.
Impossível aos poucos padres darem uma assistência com um intervalo
de tempo pequeno. Dependendo do lugar, era só uma ou duas vezes por ano.
Para
amenizar um pouco este quadro, o Bispo da Diocese da Barra organizava as
chamadas Santas Missões, que eram pregadas
por dois ou três sacerdotes que cortavam “na raça” este sertão sem
estradas para levar a Luz do evangelho aos diocesanos.
Os
missionários redentoristas, homens de fé viva, eram os convidados para empreender a salvadora
cruzada. Estes normalmente tinham boa didática, eram grandes oradores e donos
de um grande dinamismo.
Preparar o povo pela penitência, instruir no
catecismo, encaminhar pelo batismo, pela prática da virtude e do bem ao reino
de Deus, era o objetivo do missionário.
Em uma freguesia, quando havia santa missão, todo o sertão sabia... A notícia difundia-se como por encanto, através das trilhas daquele Brasil sem estradas e sem os meios de comunicação de hoje.
E o povo em peso comparecia, com disposição para os jejuns, para ser evangelizado, para rezar... buscando a expiação das culpas e a remissão dos pecados.
Os lugarejos se enchiam de gente de todos os arredores.
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1959 - Santa Missão - Pe. Antunino CSsR,
Pe. Armindo Magalhães e Pe. Miguel.CSsR
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Em Buritizinho, (atualmente cidade de Cristópolis-Ba) Lucia de Oliveira Antunes (a minha avó materna) hospedava os padres. Começava a arrumar para esperá-los muito tempo antes.
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| Lúcia de Oliveira Antunes - Dona Lucinha
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Iniciava
pela pintura da casa.
No quintal, fazia uma grande latada coberta com palha
onde colocavam as mesas para servir as comidas.
Depois
pela preparação para as refeições:
refinava o açúcar para servir o que tinha de
melhor aos sacerdotes;
pagava para pilar (socar no pilão) mais de três sacos de
arroz para alimentar o povo, e também os
sacos de sal para temperar (o sal era
comprado sem refinar, em pedras grandes);
abatia porcos e enchia as latas de
banha e de carne;
fazia muitos biscoitos que eram guardados em sacos e mais
sacos feito com tecido de algodão;
estocava requeijão e queijo curado...
A
despensa era um quarto grande, onde do lado direito ficava o paiol de farinha e
de arroz.
No alto, as tábuas suspensas por cordas, ficavam cheias de queijos,
que eram lavados cuidadosamente com palha de milho e um caquinho de telha todos
os dias até ficarem “curados”;
De um lado do mesmo cômodo, um pau atravessado,
também amarrado nos caibros do telhado,
servia de base para enrolar metros e mais metros de lingüiça de porco, preparada com a carne picada na ponta da faca e com um tempero caseiro maravilhoso
cujo cheiro invadia a cozinha quando a porta daquele quarto era aberta.
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| Na despensa de dona Lucinha, a linguiça de porco com um tempero caseiro maravilhoso... |
A
carne-seca também era dependurada ali, junto com a pele do toucinho, e os pés,
rabo e orelha do porco, já desidratados e prontos para serem colocados no
feijão.
A
casa ficava cheia de gente trabalhando.
As toalhas do altar da igrejinha de
Menino Deus, os paramentos e os paninhos usados na celebração das missas, as
toalhas de mesa, lençóis e colchas brancas bordadas, sendo engomadas para
vestir a casa com o que se tinha de mais bonito.
Nos anos trinta e
quarenta, quem fazia este trabalho com o
maior capricho era Maria Joaquina Rochedo. Lavava e engomava tudo com um mingau
ralo de tapioca que era chamado de goma e depois passava o ferro de brasa até
ficar tudo sem nenhuma dobrinha.
As louças e porcelanas inglesas, saiam da arca
para servir as refeições.
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| Pratos de porcelana inglesa que pertenceram à minha avó Lucinha. |
Os talheres de pratas eram polidos com limão e cinza.
As
bacias, jarros e urinóis de esmalte branco,(mais de quinze) eram tirados dos
guardados para ficarem à espera dos ilustres (e considerados como santos) hóspedes.
Na véspera, Dona Lucinha mandava abater um boi, bode e galinhas para cozinhar e dar de comer a quem chegasse
à sua porta.
A
casa do Coronel Antonio Aurora e dos outros filhos, também ficavam cheias de
hóspedes. Os que vinham de fora, não precisavam comprar comida e ninguém ficava
com fome. Na verdade, não tinha nem quem
vendesse.
As
famílias, a cavalo, a pé ou em carros de bois, aproximavam-se do arraial e,
pouco a pouco, o adro da igreja e a praça formigavam de gente, que sentava-se
depois ao acaso, (a maioria levava cadeiras) à espera do catecismo e da pregação.
Até as árvores ficavam cheias de gente que subiam a procura de um lugar
privilegiado para acompanhar tudo.
No altar, erguido do lado de fora da igreja,
os missionários explicavam a doutrina cristã, ensinavam os mandamentos e as
orações que serviam de preparo à confissão, e os cânticos para a procissão.
A
missa que começava às 4 horas da manhã, era celebrada em latim. Mas os cânticos, em sua maioria eram em
português e muito bem entoados pelo grupo de cantoras de Buritizinho,
coordenado pelas irmãs: Nelsa, Doxa, Zefa e Elisa Aurora de Miranda, e por Lourdesine Aurora
Leite, Antusa Antunes de Carvalho e Diva
Aurora Antunes.Daniel Aurora de Miranda, acompanhava com o violão.
A
rua e os quintais ficavam cheios de barracas onde pessoas de fora que não
tinham parentes ou conhecidos ficavam arranchadas. Era gente que vinha de
Cotegipe, Santana do Catão...de toda parte.
Os
batizados, crisma e casamentos eram feitos por “atacado”, já que todos estavam
a espera destes sacramentos e se não aproveitassem aquela ocasião, sabe Deus
quando seria a próxima!...
Antes de ser construída a igrejinha e mesmo depois dela, eram ministrados embaixo
do frondoso pé de manga que tinha na frente da casa de Fausta e Joaquim
Reginaldo.
A duração de uma Santa Missão era de quase oito dias.
Para
não ficarem roucos de tanto pregar, os padres traziam sempre nos bolsos da batina,
pedaços de gengibre secas ao sol.
A
primeira Santa Missão em Buritizinho foi em 1923. Antes era no Poço
(Tapiracanga e atualmente Baianópolis) onde já existia a capela Senhor do
Bonfim.
Em 1936 teve mais uma.
Dom
João Batista Muniz C.Ss.R., Bispo da Diocese da Barra de 1942 a 1967, era da
Congregação Redentorista e contou com a
ajuda de seus confrades da província Redentorista do Rio de Janeiro para
diversas missões em sua diocese.
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| Dom João Batista Muniz C.Ss.R. - Bispo da Diocese da Barra de 1942 a 1967 |
As que aconteceram em Buritizinho foram:
- 1943 – Santa Missão com a participação do Bispo Dom Muniz que acabara de
assumir a Diocese da Barra. Dentre outros padres redentoristas, o Pe. Geraldo
Ferreira Lima C.Ss.R.., grande pregador, que eu tive a honra de conhecer e
entrevistar nos anos setenta em Juiz de Fora – MG.
- 1944, outra vez os Redentoristas voltaram. O mestre das Missões era o Pe.
Renato Van Gessel C.Ss.R., holandês nascido em 1905, que serviu de incentivo
para o menino Damião de Oliveira Antunes querer ser sacerdote e escolher também a congregação Redentorista.
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| Dona Lucinha e seus filhos: o menino Damião Antunes (Pe. Antunes CSsR) e o Pe. Francisco Antunes |
-
1952 – Mais uma Santa Missão: Pe. Vítor
Rosa Netto C.Ss.R..e Pe. Virgílio Rosa Netto C.Ss.R.. irmãos gêmeos,
brasileiros, nascidos em 1925, foram os missionários.
- 1959, os Padres José Miguel do Líbano C.Ss.R.. brasileiro nascido em 1923, e
Antunino, pregaram a Santa Missão também com o objetivo de preparar o povo para
a festa de Ordenação do Padre Damião Antunes que aconteceria em janeiro de
1960. Esta foi a última.
As Missões Populares Redentoristas
contribuíram para a formação de um catolicismo consciente e ortodoxo, sem
sufocar as características primárias de nossa forma de expressão religiosa,
resultado da índole de nosso povo.
Lúcia Antunes.
REFERÊNCIAS:
Anuário Católico do Brasil – 1960 – Publicado pela
CNBB – Editora Vozes Ltda.
Morais Filho, Alexandre José de Melo. Festas e Tradições Populares do Brasil. Belo Horizonte, Editora. Itatiaia, 1979.
Arquivos dos Redentoristas - Província do Rio de Janeiro
ENTREVISTADOS:
Pedro de Oliveira Antunes
Lucia de Oliveira Antunes (Dona
Lucinha)
Etelvina de Oliveira Antunes
Mons. Francisco Valdemar Antunes
Pe. Geraldo Ferreira Lima C.Ss.R..
Irmão Afonso Lopes C.Ss.R.
Pe. João Fagundes Hauck CSS.R.
Pe. Damião de Oliveira Antunes
C.Ss.R.
Carmosina Rosa Antunes
Jardelina de Paiva Antunes
Olavo de Deus Rochedo
João da Cruz de Deus
Balbino Soares de Oliveira
Joveniano de Oliveira Antunes
Maria Joaquina Rochedo (Ró)
Jerolino Antunes de Carvalho
José
Benedito de Sant’Anna
10 comentários:
Minha mãe contava sobre esses eventos que ela e as irmãs participavam, dizia que era um acontecimento na cidade e parava tudo para receber os convidados,população que vinham dos arredores.As casas ficavam cheias de hóspedes e a cidade animada com o vai e vem de pessoas...Desculpe acho que agora viajei até lá relembrando nossas conversas.
Você disse muito bem, querida LEDA ! As Santas Missões eram de fato um GRANDE "ACONTECIMENTO" na vida das pessoas que moravam no interior do nosso país e na nossa região.Além do lado religioso, trazia movimento, novidades, mascates, pessoas de longe para o antigo Arraial de Buritizinho.Fatos que ficaram marcados na memória de todos que vivenciaram estes eventos. Beijos.
Bela recordação! Você sempre surpreendendo-nos com sua memória fantástica. Parabéns!!!
Por falar em Pe Luiz Vieira, lembrei-me das minhas idas à nascente do Caroá com o Tio Milia, na busca de água mineral para o mesmo, uma vez por mês, com dois barris, que eram transportados no lombo de jumento.
Um forte abraço a todos!
Rio, 10/06/12
Olá JOSÉ!!!
Agradeço-lhe pela sua presença aqui e pelo registro dela.
Boa lembrança, Primo! Tomara que aquela nascente do Caroá ainda exista.Com o desmatamento e as queimadas, muitas delas já secaram.Quando eu for por lá verificarei.
Grande abraço para você e todos da sua família.
Oi Lucia, não participei das Santas Missões, mas minha mãe sempre comenta sobre elas, inclusive a minha avó Maria José faleceu durante a última (em 1959) quando estava indo participar, pois não perdia uma. Belo resgate desse grande acontecimento da nossa terra, que tanto contribuiu para a evangelização do povo!
Abraços.
Ana Maria Paiva
Obrigada por estar sempre conosco, ANA. Eu também já ouvi a sua mãe contar sobre o falecimento da sua avó Maria José.
Em 1923, o filhinho dela,Manoel Paiva, irmão da sua mãe, também faleceu num dia de Santa Missão. Ele foi o primeiro a ser enterrado no cemitério de Buritizinho.
No meu livro nas págs. 305-306 eu narro a história dele.
Grande abraço.
Lembro do meu pai, às vésperas da Santa Missão, na correria para ajudar a minha vovó Lúcia a organizar os ingredientes - selecionar bois, porcos, bodes, galinhas etc. e conseguir pessoas para ajudar no abate e arrumação das carnes necessárias ao preparo dos alimentos para a comitiva dos padres e das pessoas que vinham de longe para participar do evento.
Nosso Buritizinho era só alegria!
Era bem assim mesmo, GILCE. A nossa Avó ficava radiante quando esperava pelos padres. Mesmo quando já passava dos 80 anos e as dores nas pernas eram constantes, quando chegava o aviso de que os padres viriam, ela ficava curada.rsrs. Era um período de tanta alegria que a saúde melhorava, acabam-se os ais. O seu pai,o meu querido tio AURELIANO, sempre foi o braço direito dela nestas tarefas. E a nossa matriarca, mesmo sem poder sair de casa, controlava tudo...
Obrigada pela sua visita e pelo seu comentário.
Beijos
Oi Lúcia. entrei no seu blog. Está muito bacana. É impressionate como você tem tantos registros guardados por vários anos. Bom ter notícias suas. Um grande abraço. Cristina (Alicerce).
Obrigada, querida CRISTINA!!!
Que surpresa boa encontrar você aqui!
Estou muito contente com a sua "visita"!
Tenho vários registros do grupo Alicerce que você fez parte. Assim que for possível, postarei aqui.
Continue conosco!
Um beijo.
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