Em 1942, no Arraial de Buritizinho, minha terra natal e hoje cidade de Cristópolis-Ba, era possível identificar os moradores das 14 casas existentes:
Cel. Antonio Aurora Antunes, e seus descendentes:
Marina,Otacílio e os 14 filhos;
Nana, Major Claro e os 5 filhos;
Fausta, Joaquim Reginaldo e os 17 filhos;
Tonico, Lucinha e os 14 filhos;
também a residência dos netos Nestor, Pedro e respectivas famílias, todas próximas à Igrejinha de Menino Deus construída pelo meu bisavô, o Cel. Antonio Aurora.
Mais um pouco acima, a casa da família de Joana Francisca de Deus, viúva de Manoel de Deus Rochedo Filho.
Vindos de fora, apenas as casas de
José Antonio de Miranda (Zé Véi) e Josefa,
Percília Teixeira e Joaquim José de Santana,
que haviam chegado em 1927.
Sátiro e Isolina que haviam chegado em 1940.
Lá mais embaixo, na saída para o povoado de Mata do Cedro:
Dona Paulina e Crispiniano e
Francisco e Benta.
Na fazenda Pé de Cedro:
Joaquim e Sebastiana e
Francisco Antonio Damaceno (Chico da Lúcia)
que haviam chegado em 1929.
ENERGIA ELÉTRICA?
Ali ninguém nem sonhava com isso...
E A CARNE?
O patriarca Antonio Aurora incentivava a partilha entre os membros da sua família. Como não existia energia elétrica nem geladeira para conservar os alimentos, abateu um boi e distribuiu para todos os filhos. Depois escalou um filho para fazer o mesmo na semana seguinte, seguido pelos outros. Organizou assim uma espécie de rodízio combinado onde todos partilhavam e comiam a carne fresca.
E SEM GELADEIRA?
É difícil imaginarmos como sobreviviam, não é mesmo?
O jeito era desidratar as carnes no sol para que pudessem ser conservadas. Quando abatiam um boi, porco, ou carneiro, as carnes eram retalhadas, salgadas e estendidas numa espécie de varal construído com madeira, até que secassem.
Os garotos eram obrigados a ficar de plantão. Tinham que ficar atentos para afugentarem os pássaros, urubus, gatos e cachorros que ficavam em volta atraídos pelo cheiro da carne. Qualquer descuido era fatal.
Outra tarefa das crianças: levar um pedaço da carne na casa de cada um dos poucos moradores do lugar.
Sempre que abatiam um capado (porco), guardavam a gordura (banha) numa lata.
A carne suína, era frita e conservada dentro da banha por vários dias.
Ou então faziam uma linguiça purinha, com a carne picada na ponta da faca e com um tempero caseiro delicioso.
Os pés, orelha, rabo e costela do porco depois de salgados e de passarem pelo sol, ficavam guardados para serem cozidos no feijão.
A pele bem curtida, era frita cada vez que se precisava de gordura o que resultava nos deliciosos torresmos.
Portanto, mesmo sem geladeira, nada se perdia.
Na casa da minha avó materna, Lúcia de Oliveira Antunes, a Dona Lucinha, naquele dia do ano de 1942, abateram dois porcos enormes. Tão grandes e gordos, que não conseguiam mais andar.
Separaram o toucinho e as carnes foram transformadas em deliciosas linguiças.
Os paus amarrados por uma corda nos caibros do telhado da despensa, ficaram cobertos por elas e pelo toucinho salgado.
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| E o cheiro bom inundava a casa cada vez que se abria a porta daquele cômodo... |
No dia seguinte, Dona Lucinha pegou a metade, colocou na bruaca, que foi amarrada no arreio da burra mansinha. Junto com os dois filhos mais velhos, levou para Angical, onde o seu filho Pe. Francisco era vigário.
A outra metade da carne, do toucinho e da linguiça que ficou, era suficiente para o consumo da família por muitos dias.
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| Dona Lúcia de Oliveira Antunes, e os filhos: o caçula Damião Antunes com 4 anos e o Padre Francisco, vigário de Angical. |
UMA TRAVESSURA NOBRE
O caçula, Damião de Oliveira Antunes, que havia completado 9 anos, não foi para Angical naquela vez. Ficou em Buritizinho. Fazia poucos dias que tinha vindo de lá. Estava de férias da escola da Professora Maria Helena Mariani Passos.
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| Damião - 9 anos - 1942. |
Durante as férias, era dele a obrigação de ir todos os dias levar a comida que a sua mãe mandava para uma senhora doente. A mesma havia vindo lá da Missão do Aricobé e morava sozinha numa casinha de pau-a-pique.
Dona Lucinha, também costumava mandar por ele, carne e gêneros alimentícios para um pessoal recém-chegado em Buritizinho que estava arranchado ao lado daquela senhora enferma. A família era numerosa. Numa dessas vezes, a beneficiada, ao receber as doações, levantou as mãos para cima e disse:
-“Deus ajude a “Sá” Lucinha! Hoje amanheci sem saber o que ia dar para esta meninada comer!"
Dali em diante, Damião, sensibilizado, sempre dava um jeitinho de entrar naquele rancho para discretamente sondar como estava a situação da família.
Naquele dia, ao levar o almoço da Doente, ouviu aquela mesma senhora que morava do lado dizendo a um dos filhos:
- “Fulano, vá ao mato pra ver se pega um tatu ou outro bicho qualquer, porque hoje não tenho nada para cozinhar pra vocês.”
Damião voltou pra casa. E agora? A sua mãe não estava lá. A irmã mais velha, Etelvina, estava também em Angical. Os irmãos estavam na lida do campo. A outra irmã que havia ficado com ele, estava na fonte lavando a louça do almoço. Mas a fome daquela família não podia esperar...
Damião entrou na despensa e viu aquela grande quantidade de linguiça enrolada no caibro.
Chamou o seu amigo Aníbal José da Cruz, um dos filhos do Sr. Felix, mais velho um pouco que ele, para ajudar-lhe.
Subiu no paiol para alcançar o caibro e foi tirando um a um os metros de linguiças. Aníbal foi recebendo.
Pegou toucinho e duas latas de banha de porco com carnes fritas dentro.
Tirou do paiol: farinha, feijão e arroz e colocou em sacos de algodão.
Da tábua de queijos, pegou os dois maiores.
Depois levaram tudo para o carro de boi que estava estacionado embaixo do frondoso pé de manga da frente da casa. Atrelaram os bois e foram entregar tudo na casa daquela família.
No finalzinho da tarde, Dona Lucinha retornou de Angical e encontrou o desfalque na despensa. Damião se adiantou e disse para sua mãe que havia levado para matar a fome de quem estava necessitando.
Dona Lucinha o repreendeu dizendo:
-“Mas meu filho, precisava levar o porco todo? Não podia ter deixado ao menos um pedaço pra gente provar da carne e da linguiça?
Damião respondeu:
- “E o tanto de gente que tem lá naquela casa? Tinha que ser muita coisa, Mãe!! Eu nunca vi a senhora negar nada a ninguém e sempre me mandou levar coisas na casa de quem é pobre. Por isso pensei que a senhora ia era achar bom o que eu fiz... "
Lucinha se acalmou e disse:
- “Tem nada não, meu filho. Isso é coisa de Deus. Amanhã mando abater outro porco.”
Com os olhos marejados ela concluiu:
- “Naquele dia ele exagerou. Mas não foi a única vez que pegou coisas da despensa para doar. Desde criança o seu tio já enxergava a necessidade dos outros e era desapegado das coisas materiais. Por isso eu sabia que ele seria um servo de Deus.”
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| Dona Lucinha e o seu filho Pe. Damião Antunes em 1970. |
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| 2004 - Pe. Damião Antunes celebrando na Igreja São José em Belo Horizonte |
Hoje, dia 15 de novembro de 2012,
faz 5 anos que o Pe. Damião de Oliveira Antunes CSsR foi morar com Deus
e nos deixou lembranças ricas de bons exemplos como esta.
Um abraço a todos
Lúcia Antunes.










7 comentários:
Gostei muito do seu blog e deste "Causo".
O Padre Antunes foi um ser especial que deixou saudades em todos nós.
Um grande abraço.
Lúcia
Parabéns por resgatar a história e os valores que dela fazem parte!
Trabalho lindo este seu.
Beijos
Viajo no tempo com estes seus Causos. Continue sempre nos brindando com os seus relatos ricos em detalhes e bons exemplos.
Beijos
Estive aqui no blog.
Você como sempre contando maravilhosas passagens da história dos Aurora.
Beijos.
Olá, profª!!!!!
Visitei hoje o Carro de Boi.
Tudo lindo, perfeito!
Mais uma vez, parabéns pelo trabalho de excelência.
Agradeço a todos pelo incentivo.
O comentário e a aprovação é o combustível que movimenta o CARRO DE BOI.
Continuem conosco.
Grande abraço ao PAULO CÉSAR, CAMILA, CARMEN, LEDA E KARLA FÉLIX.
A presença de vocês é uma honra para mim.
Que saudades do Damiãozinho! Me lembro muito daquele sorriso gostoso e das mangonas grandes que ele me dava quando eu era pequena.
Muito especial...
Bjs
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