BEM-VINDO(A)! O CARRO DE BOI É SEU TAMBÉM!

O carro de boi tem sido o símbolo de um trabalho de pesquisa que iniciei há muitos anos e publiquei no livro de minha autoria CRISTÓPOLIS – TERRA DE MUITAS HISTÓRIAS.

Por ter sido o meio de transporte dos meus antepassados, e ter trilhado na história da minha cidade natal, Cristópolis–Ba, ele também faz parte da estrada da minha vida. E vem carregado de emoções, saudades de tanta gente que já se foi, e de muitas lembranças.

Hoje ele enfeita o meu desejo de APROXIMAR E REUNIR as pessoas, de VALORIZAR A FAMÍLIA e as nossas raízes e fazer com que os VALORES que recebemos dos nossos antepassados fiquem vivos nos nossos descendentes.

O Carro de Boi não é só meu. É SEU TAMBÉM.

Hoje você vive confortavelmente na cidade, viaja de carro ou de avião, mas no seu passado, alguém começou a sua história tocando um carro de boi. Portanto, O CARRO DE BOI ESTÁ NA RAIZ DA SUA EXISTÊNCIA.

OBRIGADA PELA SUA VISITA! Volte sempre!

Deixe um recadinho para registrar a sua passagem por aqui.

Um abraço

Lúcia Antunes

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

CAUSOS DO BURITIZINHO - DAMIÃO ANTUNES E UMA TRAVESSURA NOBRE




Em 1942, no Arraial de Buritizinho, minha terra natal e hoje cidade de Cristópolis-Ba, era possível identificar os moradores das 14 casas existentes: 
Cel. Antonio Aurora Antunes, e seus descendentes: 
Marina,Otacílio e os 14 filhos; 
Nana, Major Claro e os 5 filhos;
Fausta, Joaquim Reginaldo e os 17 filhos;
Tonico, Lucinha e os 14 filhos; 
também a residência dos netos Nestor, Pedro e respectivas famílias, todas próximas à Igrejinha de Menino Deus construída pelo meu bisavô, o Cel. Antonio Aurora. 



Mais um pouco acima, a casa da família de Joana Francisca de Deus, viúva de Manoel de Deus Rochedo Filho.

Vindos de fora, apenas as casas de 
José Antonio de Miranda (Zé Véi) e Josefa, 
Percília Teixeira e Joaquim José de Santana, 
que haviam chegado em 1927. 
Sátiro e Isolina que haviam chegado em 1940.

Lá mais embaixo, na saída para o povoado de Mata do Cedro: 

Dona Paulina e Crispiniano e
Francisco e Benta. 
Na fazenda Pé de Cedro:
Joaquim e Sebastiana e 
Francisco Antonio Damaceno (Chico da Lúcia) 
que haviam chegado em 1929.

ENERGIA ELÉTRICA?

Ali ninguém nem sonhava com isso...

E A CARNE?

O patriarca Antonio Aurora incentivava a partilha entre os membros da sua família. Como não existia energia elétrica nem geladeira para conservar os alimentos, abateu um boi e distribuiu para todos os filhos. Depois escalou um filho para fazer o mesmo na semana seguinte, seguido pelos outros. Organizou assim uma espécie de rodízio combinado onde todos partilhavam e comiam a carne fresca.

E SEM GELADEIRA?

É difícil imaginarmos como sobreviviam, não é mesmo? 

O jeito era desidratar as carnes no sol para que pudessem ser conservadas. Quando abatiam um boi, porco, ou carneiro, as carnes eram retalhadas, salgadas e estendidas numa espécie de varal construído com madeira, até que secassem. 




Os garotos eram obrigados a ficar de plantão. Tinham que ficar atentos para afugentarem os pássaros, urubus, gatos e cachorros que ficavam em volta atraídos pelo cheiro da carne. Qualquer descuido era fatal.

Outra tarefa das crianças: levar um pedaço da carne na casa de cada um dos poucos moradores do lugar.

Sempre que abatiam um capado (porco), guardavam a gordura (banha) numa lata. 

A carne suína, era frita e conservada dentro da banha por vários dias.     

Ou então faziam uma linguiça purinha, com a carne picada na ponta da faca e com um tempero caseiro delicioso.

Os pés, orelha, rabo e costela do porco depois de salgados e de passarem pelo sol, ficavam guardados para serem cozidos no feijão. 

A pele bem curtida, era frita cada vez que se precisava de gordura o que resultava nos deliciosos torresmos. 
Portanto, mesmo sem geladeira, nada se perdia. 



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Na casa da 
minha avó materna, Lúcia de Oliveira Antunes, a Dona Lucinha, naquele dia do ano de 1942, abateram dois porcos enormes. Tão grandes e gordos, que não conseguiam mais andar.  

Separaram o toucinho e as carnes foram transformadas em deliciosas linguiças.  
Os paus amarrados por uma corda nos caibros do telhado da despensa, ficaram cobertos por elas e pelo toucinho salgado. 

E o cheiro bom inundava a casa cada vez que se abria a porta daquele cômodo... 

No dia seguinte, Dona Lucinha pegou a metade, colocou na bruaca, que foi amarrada no arreio da burra mansinha. Junto com os dois filhos mais velhos, levou para Angical, onde o seu filho Pe. Francisco era vigário.

A outra metade da carne, do toucinho e da linguiça que ficou, era suficiente para o consumo da família por muitos dias.
Dona Lúcia de Oliveira Antunes, 
e os filhos:
o caçula Damião Antunes com 4 anos
e o  Padre Francisco, vigário de Angical.

UMA TRAVESSURA NOBRE

O caçula, Damião de Oliveira Antunes, que havia completado 9 anos, não foi para Angical naquela vez. Ficou em Buritizinho. Fazia poucos dias que tinha vindo de lá. Estava de férias da escola da Professora Maria Helena Mariani Passos.



Damião - 9 anos - 1942.


Durante as férias, era dele a obrigação de ir todos os dias levar a comida que a sua mãe mandava para uma senhora doente. A mesma havia vindo lá da Missão do Aricobé e morava sozinha numa casinha de pau-a-pique. 


Dona Lucinha, também costumava mandar por ele, carne e gêneros alimentícios para um pessoal recém-chegado em Buritizinho que estava arranchado ao lado daquela senhora enferma. A família era numerosa. Numa dessas vezes, a beneficiada,  ao receber as doações, levantou as mãos para cima e disse:

-“Deus ajude a “Sá” Lucinha! Hoje amanheci sem saber o que ia dar para esta meninada comer!"

Dali em diante, Damião, sensibilizado, sempre dava um jeitinho de entrar naquele rancho para discretamente sondar como estava a situação da família.

Naquele dia, ao levar o almoço da Doente, ouviu aquela mesma senhora que morava do lado dizendo a um dos filhos:

- “Fulano, vá ao mato pra ver se pega um tatu ou outro bicho qualquer, porque hoje não tenho nada para cozinhar pra vocês.”

Damião voltou pra casa. E agora? A sua mãe não estava lá. A irmã mais velha, Etelvina, estava também em Angical. Os irmãos estavam na lida do campo. A outra irmã que havia ficado com ele, estava na fonte lavando a louça do almoço. Mas a fome daquela família não podia esperar...

Damião e
ntrou na despensa e viu aquela grande quantidade de linguiça enrolada no caibro.
Chamou o seu amigo Aníbal José da Cruz, um dos filhos do Sr. Felix, mais velho um pouco que ele, para ajudar-lhe.  
Subiu no paiol para alcançar o caibro e foi tirando um a um os metros de linguiças. Aníbal foi recebendo. 
Pegou toucinho e duas latas de banha de porco com carnes fritas dentro. 
Tirou do paiol: farinha, feijão e arroz e colocou em sacos de algodão.      

Da tábua de queijos, pegou os dois maiores. 

Depois levaram tudo para o carro de boi que estava estacionado embaixo do frondoso pé de manga da frente da casa. Atrelaram os bois e foram entregar tudo na casa daquela família.

No finalzinho da tarde, Dona Lucinha retornou de Angical e encontrou o desfalque na despensa. Damião se adiantou e disse para sua mãe que havia levado para matar a fome de quem estava necessitando.

Dona Lucinha o repreendeu dizendo:

-“Mas meu filho, precisava levar o porco todo? Não podia ter deixado ao menos um pedaço pra gente provar da carne e da linguiça?

Damião respondeu:

- “E o tanto de gente que tem lá naquela casa? Tinha que ser muita coisa, Mãe!! Eu nunca vi a senhora negar nada a ninguém e sempre me mandou levar coisas na casa de quem é pobre. Por isso pensei que a senhora ia era achar bom o que eu fiz... "

Lucinha se acalmou e disse:

- “Tem nada não, meu filho. Isso é coisa de Deus. Amanhã mando abater outro porco.” 



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Ouvi este relato da minha avó Lucinha, já bem depois que o tio Damião havia se ordenado sacerdote na Congregação Redentorista. 

Com os olhos marejados ela concluiu: 

- “Naquele dia ele exagerou. Mas não foi a única vez que pegou coisas da despensa para doar. Desde criança o seu tio já enxergava a necessidade dos outros e era desapegado das coisas materiais. Por isso eu sabia que ele seria um servo de Deus.” 

Dona Lucinha e o seu filho Pe. Damião Antunes em 1970.

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2004 - Pe. Damião Antunes celebrando na Igreja São José em Belo Horizonte 

Hoje, dia 15 de novembro de 2012, 
faz  5 anos que o Pe. Damião de Oliveira Antunes CSsR foi morar com Deus 
e nos deixou lembranças ricas de bons exemplos como esta.

Um abraço a todos

Lúcia Antunes.





7 comentários:

Paulo César disse...

Gostei muito do seu blog e deste "Causo".
O Padre Antunes foi um ser especial que deixou saudades em todos nós.
Um grande abraço.

Camila Valadares disse...

Lúcia
Parabéns por resgatar a história e os valores que dela fazem parte!
Trabalho lindo este seu.
Beijos

Carmen disse...

Viajo no tempo com estes seus Causos. Continue sempre nos brindando com os seus relatos ricos em detalhes e bons exemplos.
Beijos

LLeda Maria Costa Barboza disse...

Estive aqui no blog.
Você como sempre contando maravilhosas passagens da história dos Aurora.
Beijos.

Karla Félix disse...

Olá, profª!!!!!
Visitei hoje o Carro de Boi.
Tudo lindo, perfeito!
Mais uma vez, parabéns pelo trabalho de excelência.

LÚCIA ANTUNES disse...

Agradeço a todos pelo incentivo.
O comentário e a aprovação é o combustível que movimenta o CARRO DE BOI.
Continuem conosco.
Grande abraço ao PAULO CÉSAR, CAMILA, CARMEN, LEDA E KARLA FÉLIX.
A presença de vocês é uma honra para mim.

Ana Maria disse...

Que saudades do Damiãozinho! Me lembro muito daquele sorriso gostoso e das mangonas grandes que ele me dava quando eu era pequena.
Muito especial...
Bjs

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