BEM-VINDO(A)! O CARRO DE BOI É SEU TAMBÉM!

O carro de boi tem sido o símbolo de um trabalho de pesquisa que iniciei há muitos anos e publiquei no livro de minha autoria CRISTÓPOLIS – TERRA DE MUITAS HISTÓRIAS.

Por ter sido o meio de transporte dos meus antepassados, e ter trilhado na história da minha cidade natal, Cristópolis–Ba, ele também faz parte da estrada da minha vida. E vem carregado de emoções, saudades de tanta gente que já se foi, e de muitas lembranças.

Hoje ele enfeita o meu desejo de APROXIMAR E REUNIR as pessoas, de VALORIZAR A FAMÍLIA e as nossas raízes e fazer com que os VALORES que recebemos dos nossos antepassados fiquem vivos nos nossos descendentes.

O Carro de Boi não é só meu. É SEU TAMBÉM.

Hoje você vive confortavelmente na cidade, viaja de carro ou de avião, mas no seu passado, alguém começou a sua história tocando um carro de boi. Portanto, O CARRO DE BOI ESTÁ NA RAIZ DA SUA EXISTÊNCIA.

OBRIGADA PELA SUA VISITA! Volte sempre!

Deixe um recadinho para registrar a sua passagem por aqui.

Um abraço

Lúcia Antunes

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

CAUSOS DO BURITIZINHO: A LAPINHA DE OLAVO



Antes do início das novenas do Natal, no dia certo, eu estava lá na Igrejinha de Menino Deus. 
Gostava de assistir a montagem da lapinha feita por Olavo, um dos primeiros moradores de Buritizinho. 
E ficava quietinha, sentadinha na calçada, fazendo perguntas, querendo ajudar, mas sem atrapalhar o trabalho dele.


OLAVO DE DEUS ROCHEDO
Pitando um cigarrinho de palha, com toda a sua riqueza de simplicidade, ele chegava ao adro da igrejinha  com o material: 
sacos de cimento vazios, 
papel de embrulho, 
tinta em pó xadrez  vermelha, 
uma tigela de esmalte com açafrão em pó, 
uma brocha, 
um novelo de linha feita na roda de fiar 
e algumas varas cortadas no mato.

Abria o saco de cimento, ia modelando as pedras e amarrado-as nas varas. 
Depois, misturava água no pó xadrez e com a brocha respingava a tinta nas pedras de papel. 
Fazia o mesmo com o açafrão, intercalando o vermelho e o amarelo. 

Ficava muito parecido com pedras de verdade!

Em seguida, levava tudo para dentro da igrejinha e fazia a montagem da gruta.
Enfeitava com plantas, folhas de coqueiro e o piso com areia. 
Com um espelho, fazia um lago e colocava os patinhos de cerâmica fabricados na Barra que eu havia trazido.
Em volta, os pés de arroz  brotando, que eram plantados com esta finalidade.
No alto, uma grande estrela feita com papel laminado pela tia Telva.

No final, um trabalho de artista, 
lindo de se ver e reviver: 
uma gruta enorme, com as imagens do presépio, pronta para celebrar a maior festa do remoto Buritizinho: o Natal.

Meu presépio - 2012.
Uma pequena gruta inspirada na técnica
que aprendi com Olavo quando eu era criança.
 Reaproveitei sacos de papel usados da padaria. Impossível não me lembrar dele todo final de ano...

Lúcia de Oliveira Antunes, a Dona Lucinha, costumava brincar com Olavo chamando-o de “Pra Tudo”. O apelido, por si só já é explicativo. De fato, Olavo sempre estava pronto para ajudar e fazer tudo que lhe solicitassem, mesmo as coisas que necessitassem ser inventadas.

Lembro-me com muito carinho da primeira agulha de crochê que tive, quando eu era criança. 

Foi feita por ele, com um raio de uma roda de bicicleta. 
Diante do meu pedido, parou tudo o que estava fazendo, e eu fiquei sentadinha numa pedra esperando-o cortar o raio, lixar numa pedra... 

Depois entregou-me a agulha pronta, e ficou sorrindo ao me ver sair correndo, saltitando, alegre, com aquele objeto que não se encontrava a venda no comércio de Buritizinho.



Quando eu chegava da Barra para passar as minhas férias escolares, trazia as peças de teatro que eu assistia no Colégio Santa Eufrásia – naquele tempo a gente chamava de drama – e ensaiava com as crianças de Buritizinho. 
A apresentação era feita no prédio escolar e era Olavo quem fazia os palcos.

Em 1965, eu trouxe um Auto de Natal com 5 atos. Dirigi os ensaios, figurino e trilha sonora, com um grupo de crianças e moças, fazendo uma bela apresentação em Cristópolis.

O nome da peça era O Natal de Branquinho e trazia uma mensagem muito bonita. Foi a primeira naquela pequena cidade com diálogos falados, diferentemente das anteriores que eram como óperas, e por isso emocionou muita gente. 

Desta vez o meu pedido ao “Seu” Olavo, foi mais complicado. O palco teria que ser diferente e mais trabalhoso. 
Detalhe: eu só tinha 9 anos. E como sempre, ele deu atenção àquela criança que vivia lhe dando trabalho, ouviu a minha explicação daquela coisa que ele nunca tinha visto, e fez tudo direitinho com toda paciência e dedicação
a cortina que abria e fechava, 
com rodízios feitos de arame,
escondidos por um bandô que a tia Telva costurou, 
e uma iluminação especial com lâmpadas coloridas (jogo de luz).

A comunidade toda participou pagando o ingresso, e todos ficaram admirados daquele lindo palco no prédio escolar Jerolino Carvalho.  O dinheiro arrecadado foi usado para ajudar na construção da igreja Nossa Senhora de Fátima.




Em outra ocasião “Seu” Olavo construiu uma roleta para ser usada na quermesse da igreja. 
Reaproveitou uma roda de bicicleta, um pedaço de madeira e fez uma paleta com chifre do boi. 
Esta foi mais uma coisa que ele nunca tinha visto. 
Seguindo apenas a minha descrição, ele fez e saiu bem feito.

- "Lá vem você inventando moda!"... 

dizia ele brincando comigo quando eu chegava, já sorrindo, para pedir-lhe alguma coisa... 
E sem reclamar, fazia com prazer as armações para as lanternas dos Ternos de Reis ...e outras coisas mais, ajudando-me a realizar os meus sonhos de criança. 
Grande parceiro! 


Um registro da última visita que recebi de Olavo em Cristópolis

Além disso, Olavo fez muita coisa: foi agricultor, sanfoneiro, inventor de objetos, fabricante de caixões, pedreiro...
Funcionário da Prefeitura de Angical desde 1960, era responsável pela manutenção das bombas que retiravam a água dos poços artesianos em Buritizinho e posteriormente em Cristópolis. 
Em 1962, com a chegada da luz, passou a cuidar também do motor a óleo e das instalações elétricas da Vila Buritizinho e assim seguiu durante muito tempo depois da emancipação da cidade. 

Um homem ativo e inteligente, que com apenas um mês de escola que frequentou, conseguiu aprender ler, escrever e contar.
O resto, descobriu sozinho. 
E colocou tudo o que sabia a serviço da comunidade. 



OLAVO DE DEUS ROCHEDO
Nasceu no Arraial de Buritizinho no dia  29/07/1907. 
Faleceu em  05/05/2003. 
Filho de Manoel de Deus Rochedo (Filho) e Joana Batista de Deus.
Sobrinho da minha bisavó Joana Francisca Antunes.
Neto dos meus trisavós Manoel de Deus Rochedo e Joana Francisca de Deus. 
Casado com sua prima Joventina dos Passos Rochedo. 
Filhos: Zelice, Erenice, Cleunice, Elício, Jovenice, Aurelício, Flornice,Vera, Manoel e Elite.

Um abraço a todos da Família deste grande homem,

que também é minha. 
Lúcia Antunes.

7 comentários:

Fabiane Rochedo disse...

Minha amada Lúcia, linda homenagem ao nosso eterno Olavo, meu vovô querido, a saudade é grande...bjss

Gabriela Rochedo disse...

Maria Lúcia, não tenho palavras para descrever o que estou sentindo. Quem o conheceu, sabe que ser humano incrível ele foi... Com certeza esse é seu maior legado, essas atitudes, essa boa vontade em ajudar as pessoas, de fazer o bem, sempre...

Quero aproveitar para te agradecer, pela linda homenagem, chorei rios...rs
Muito, muito obrigada por tudo...

Walkyria disse...

Homenagem mais do que especial! Muito bom conhecer um pouco da história daqueles que nos deixaram mais do que saudades, mas também muitos exemplos a serem seguidos! Beijo

Weliton Rochedo disse...


lindo mural !! parabéns prima !!!!

Leda Maria Costa Barboza disse...

Muito lindo esse causo... eu me lembro da Lapinha de Tia Quinô, que também era muito linda e cheia de detalhes...

Juliana Rochêdo disse...

Vi esta homenagem do vovô e achei lindo o carinho e amor que vc tem com ele.

Ana Maria Paiva disse...

Oi Lucia, linda homenagem para Sr. Olavo! E bem merecida!!! Foi um grande homem!
Fui artista naquele palco que ele fez, lembra? (o coelhinho). Quanto tempo...
Um grande abraço para vc e para a família dele.
Ana

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