Quando criança, morando na cidade da Barra-BA, ouvi um "causo" que era guardado a sete chaves por quem o conhecia.
Nos idos do século XIII ao início do século passado, sem a existência de Instituições Financeiras ou Bancos, as Pessoas ricas guardavam o dinheiro em casa.
O mais seguro era pegar um pote de cerâmica, panela de cobre, uma caixa ou mala de folha ou de madeira (e neste caso, em geral, recoberta de couro), com tampa geralmente convexa, guardar o tesouro e enterrar.
O lugar era mantido em segredo para que outros não tivessem acesso.
Muitos morriam sem terem revelado a ninguém, nem aos parentes.
Foi o que fez, segundo o relato que me fizeram, a Baronesa Maria Alexandrina de Almeida Franco, que viveu na Barra até o início do século passado.
Nos anos cinqüenta, um Homem que morava em Xique-Xique - BA, recebeu em sonho a visita da Baronesa já falecida há muito tempo, pedindo-lhe que viesse arrancar um tesouro que estava enterrado no jardim do castelo onde ela morava na Barra.
O mesmo ficava localizado à antiga Rua Floriano Peixoto, em frente à casa de número 09, que pertence à Paróquia da Barra. Atualmente, Rua Dom Muniz.
Do início dos anos 60 a 1970, morei nesta casa Paroquial e ainda existia o castelo em ruínas.
Era um território proibido para nós, crianças, por causa do risco de sermos machucadas com os restos da construção desmoronando.
Lembro-me bem do muro alto, que ainda estava mais ou menos preservado, arrematado por cobogós em forma de flor.
O portão para pedestre estava sempre trancado. Pelas frestas entre as tiras de madeira trabalhada, fiquei muitas vezes observando aquele amontoado de tijolos, barro, pedras e pedaços de madeira, na frente do que restava do antigo sobrado.
Havia muitos pés de mamona impedindo uma visão mais ampla daquele lugar que incitava a minha curiosidade e imaginação.
Voltemos ao sonho daquele Felizardo:
O honesto Senhor visitado em sonho pela Baronesa era muito pobre. Para sustentar a sua família numerosa, transportava lenha na carga de um jumento pelas ruas de Xique-Xique para vender. A Esposa lavava e passava roupas para ajudar na alimentação das crianças.
Ao doar a sua fortuna, a Baronesa impôs-lhe três condições:
- A primeira é que só começasse a usar o dinheiro depois de passado quatro meses.
- A segunda: antes de completar um ano que tivesse tomado posse do tesouro, demolisse o jazigo que cobria o lugar onde haviam sepultado o seu corpo, no Cemitério do Santíssimo Sacramento, na cidade da Barra - BA. Em seu lugar, construísse um túmulo no modelo e tamanho estabelecido por ela.
E assim foi feito, continuou o meu narrador.
O Beneficiado arrancou o Baú que estava cheio de jóias, prataria e muitas moedas de ouro. Precisava ir ao Rio de Janeiro para trocar o ouro por moeda corrente. Mas não tinha dinheiro para pagar as passagens. Pediu emprestado a uma Pessoa prometendo pagar o dobro quando voltasse. Esta jurou de pés juntos que não contaria para ninguém, mas depois confiou num Amigo que andou espalhando a notícia para Alguns. Mesmo assim, o assunto era proibido.
O Novo Rico comprou uma bela casa na Barra e a reformou. Fez a mudança de Xique-Xique e de vida. Colocou os filhos para estudar. Sem ostentação. Aquela Família honrada soube muito bem administrar o presente da Finada, de forma discreta.
Pouco tempo depois do ocorrido, segundo a Pessoa que fez a narrativa, todos mudaram para outra cidade.
Enquanto eu morei na Barra, todos os anos, no dia de Finados, quando fazíamos a visita ao Cemitério, uma coisa chamava a atenção: o Túmulo da Baronesa havia sido pintado, estava muito bem cuidado e cheio de flores.
Uma Amiga nossa, uma vez perguntou ao responsável pela limpeza do Cemitério, quem fazia aquela manutenção do Túmulo. Ele respondeu que ninguém sabia. O Pintor trabalhava durante a noite, longe de olhares curiosos.
O nome do suposto Beneficiado?
Não conto porque não sei.
Naquele tempo os mais velhos gostavam muito de contar histórias envolvendo almas penadas e assombrações. Fazia parte da cultura popular. E geralmente eram recheados de segredos, sem revelar nomes, para dar mais credibilidade ao que se narrava. Fantasias e imaginação a parte, tudo tem seu valor, quando se trata de resgatar a história.
Pois este é um "causo" que retrata os costumes da época e o medo do sobrenatural que fazia parte da vida das Pessoas nas cidades do interior.
Um abraço a todos.
Lúcia Antunes


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15 comentários:
Que bom saber que este Carro de Boi está voltando pra estrada! Foram quase três anos parado e eu já estava sentindo falta. O seu jeito de escrever é muito agradável. Em frente, Amiga Lucia Antunes Antunes!
Parabéns Lucia Antunes!! Muito interessante e criativo o espaço " Carro de Boi"! Adorei conhecer. Vc é muito inteligente e ler o que escreve é bastante prazeroso! Bjos
Parabéns Lucia Antunes! muito feliz pelo convite. Para quem é parte desse passado tão presente e tão lindo!!! cheio de amor, amizade e alegria, é maravilhoso contar com sua louvável iniciativa, para novamente viver a época feliz da infância e juventude.
O que vivemos na "Nossa Barra" foi muito forte, muito especial, muito único, pois nem o tempo e nem a distância conseguiu e jamais conseguirá apagar.
Desejo que, todos tenhamos a felicidade de darmos continuidade à história, que marcou para sempre a vida de cada um de nós. Obrigada!!!
Voltando devagar, no ritmo de um carro de boi, Claudia Veiga! rsrs Mesmo isso aqui sendo extremamente agradável e até viciante, tenho que policiar-me para não ficar sentada muito tempo e ter problemas com a coluna depois. Vamos em frente, devagar e sempre! Um abraço.
Obrigada, Zélia Rodrigues. É uma alegria ter você fazendo parte desta viagem ao passado.
Grata, Eleusis Lins! Concordo plenamente com você! Eu também penso que dar continuidade e perpetuar este passado é responsabilidade de todos nós. As nossas fotos antigas, as nossas memórias, se não forem passadas adiante, se perderão com o tempo. É por isso que sinto-me na obrigação de repassar o que tenho e o que sei dos lugares por onde passei. Foi muito bom reencontrá-la! Um abraço.
Bem interessante este conto. . Existe inúmeras outras referências sobre tais heranças. .
a casa onde minha mãe mora em Angical era deles, no inicio tinha 3 casas, o sobrado, a do meio e a nossa. as principais não existem mais,cheguei a conhecer as ruínas do sobrado. O povo contava uma estoria semelhante, que nas 3 casas tinha de ouro, joias e pedras preciosas enterrado. Procurei muito, achei alguns cristais, sem valor no quintal. Mas no sobrado um dia apareceu um buraco enorme, este eu vi, mas ninguém sabe quem cavou, dai surgiu esta estoria de que alguem sonhou e retirou os pote de ouro.
a nossa casa está descaracterizada, mas era bonita quando mudamos pra lá, mas foi reformada por meu pai, mas as paredes largas, mais ou menos 50 cm de largura, ainda estão lá, bem como as portas e janelas.
Pesquisei bastante sobre os Almeidas antes de escrever o meu livro. Muita coisa interessante. Depois vou copiar a síntese que publiquei pra lhe mostrar Marquinho Marcos J C Andrade.
obrigado
Os arquivos da rede falam que a Baronesa nasceu em Lençóis, mas na verdade foram os seus Pais que de lá vieram. Os filhos mais novos dos Almeida nasceram no Angical. Mas como era um pontinho fora do mapa na época e os registros de nascimento eram feitos à escolha do freguês, devem ter optado por colocar a naturalidade como sendo de Lençóis. Por ser um lugar mais conhecido e mais chique na época! rsrs
parabéns, muito bom.
nas paginas de Santa Luzia, diz que é de Lençois, no documento do óbito diz que é da Barra
Rsrs Era tudo mal feito naquela época. Dependia da palavra de quem fosse o informante. O cartório não pedia o único documento da época que era certidão de nascimento.
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